Em torno do termo Aspie

«Não estamos sós». Um espaço de reflexão sobre a diferença.
O meu muito obrigado por este testemunho e os desejos das maiores venturas nessa jornada. As portas do Planeta Asperger estão sempre abertas...«Hoje queremos falar de esperança. Não porque o nosso "aspie" seja um caso leve, mas exactamente por já termos descido aos infernos. Esperança porque estes indivíduos "diferentes" existem há milhões de anos e têm sobrevivido sem apoio especializado. Sendo um em cada 300 nascimentos, as escolas primárias, secundárias e superiores estão cheias deles, fazem os cursos e provavelmente a maioria consegue. Esperança porque só na última década se começou a estudar e tratar a sério esta situação, o que abre muitas portas nos próximos anos. Citamos "A ignorância turva-nos o pensamento e fecha-nos o coração, colocando-nos à parte de um processo onde temos de ser parte integrante" da Nota Introdutória da Presidente da APSA (Piedade Líbano Monteiro) ao livro de Tony Attwood "A Síndrome de Asperger". Esperança também quando olhamos para trás e vemos o que se passou e como actuámos. O que ele deve ter sofrido, quando o procurávamos disciplinar, com as concepções habituais na sociedade. Hoje temos um guia, nomeadamente este livro de Tony Attwood, que no fim de cada capítulo resume sugestões para pais e professores trabalharem as deficiências próprias do seu aspie, uma vez que todos são diferentes. Esperança porque os aspies não têm só características "negativas" (dificuldade na comunicação, dificuldade no relacionamento social, dificuldade no pensamento abstracto) mas têm também qualidades éticas e morais que devem ser apreciadas e utilizadas para superar as dificuldades (não mentem, têm um sentido de justiça muito apurado, são dedicados e leais às amizades, são determinados e conhecedores). Não queremos falar de uma esperança vã e cega, como quem repete para si próprio "isto vai melhorar". Apenas com o realismo que se apodera de nós depois de uma experiência em que vemos a morte por perto e nos faz repensar tudo, deixar de lado muita coisa pequena a que antes dávamos muita importância. Hoje não sabemos se o D. vai ser autónomo. Mas não é isso o mais importante. O que nos importa é que seja feliz. Dito isto, não vamos desistir de nada. A felicidade dele constrói-se com muitos tijolos. Um modo de se sustentar é um deles. O D. teve algumas das piores coisas que um aspie pode ter:Ainda podia ser pior. E rapidamente nos lembramos de duas:Foi seguido por um pedopsiquiatra e não foi diagnosticado;Desenvolveu uma depressão grave, reactiva ao insucesso escolar, que não foi tratada;Desenvolveu uma psicose no seguimento da anterior, com delírios para fugir ao sofrimento extremo;Tentou o suicídio.Felizmente enviaram-nos ao CADIn, onde o Prof. Carlos Filipe nos deu tratamento com princípio, meio e fim e a Dr.ª Sandra Pinho acompanhou os primeiros passos de reintegração (vai iniciar um curso do IEFP). Hoje está melhor do que sempre esteve. Porém, nada do que possamos fazer vai evitar uma ou outra crise grave. Viver com um aspie é como uma montanha russa. Temos que estar preparados para as crises. Caso contrário somos apanhados desprevenidos e a mágoa é muito maior. O que dizemos aqui não é palavreado oco, é o que sentimos. E devíamos estas palavras a todos os que como nós sofrem e lutam por aqueles que amam.Podia ter saltado do 7.º andar, com a mãe agarrada a ele (só não o fez porque a janela estava encravada).Podia não ter sido diagnosticado.ObrigadoT.Rex e Inna»